Um bom treinador de base não é, antes de tudo, um mestre da tática — é alguém que sabe se comunicar

Coaching 10114 min de leitura

Conor Murning, desenvolvedor de aprendizagem para treinadores da FA (Federação Inglesa de Futebol), falou num episódio de podcast sobre um tema que muitos treinadores ignoram: o que faz de você um bom treinador não é o quanto você sabe de tática, mas sim a sua capacidade de construir relações com os jogadores, de se adaptar quando o treino não sai como planejado, e de dizer algo no final que faça a criança querer voltar na semana seguinte.

Você pode baixar um plano de treino da internet, mas não pode baixar a relação com os jogadores

Se você perguntar a um treinador "como dar um bom treino?", a primeira reação da maioria será: elaborar um bom plano de treino.

Isso não está errado. Mas o que Conor Murning quer dizer é outra coisa.

Murning é desenvolvedor de aprendizagem para treinadores da FA (The FA, a Federação Inglesa de Futebol), participando na criação de cursos e recursos de formação de treinadores, desde a base até o alto nível. Antes disso, trabalhou como treinador nas categorias de base do Chelsea e do Fulham, e também treinou em universidades. No podcast Coach Cast da FA, ele abordou um tema: o que é a "eficácia pessoal" (Personal Effectiveness) de um treinador.

A definição dele é direta:

"Eficácia pessoal, no fundo, é como nós, enquanto treinadores, nos apresentamos diante dos jogadores. Não é apenas o quanto você sabe de tática e técnica, mas também se você consegue criar uma conexão com os jogadores, se consegue se comunicar de forma eficaz com as pessoas ao seu redor, se consegue gerir a si mesmo."

Essa frase parece senso comum, mas pense bem — quando foi a última vez que você parou para pensar seriamente "como estou me saindo como pessoa no papel de treinador?" A maioria dos treinadores dedica praticamente todo o tempo de estudo à tática e à técnica, e poucos investem o mesmo tempo refletindo sobre a própria forma de se comunicar, sobre a relação com os jogadores, sobre a gestão das próprias emoções.

Murning disse uma frase que me marcou bastante:

"Nesta era, a informação é extremamente acessível. Qualquer pessoa pode baixar um plano de treino da internet, encontrar os pontos-chave de técnica e tática, e ir ao campo transmitir isso aos jogadores. Mas se esse plano de treino vai realmente chegar aos jogadores — isso depende das suas qualidades pessoais."

Em outras palavras: o que importa não é tanto o plano de treino em si, mas como você, enquanto pessoa, o leva até os jogadores.

Comunicar não é apenas "falar"

Murning divide a comunicação em duas partes: falar e ouvir. A maioria dos treinadores investe muito esforço no "falar" — como explicar, como demonstrar, como dar feedback. Mas e o "ouvir"?

"Uma coisa que se tornou cada vez mais importante ao longo da minha carreira é que comunicar não é apenas o que você diz, mas também se você está ouvindo. Especialmente quando está com os jogadores, você pode obter uma quantidade enorme de informações simplesmente ao ouvir com atenção. Jogadores jovens às vezes são extremamente honestos ao compartilhar o que pensam — desde que você lhes dê espaço para falar."

Ele também mencionou uma situação muito prática: as conversas difíceis.

"Seja com jogadores, com pais ou com colegas, sempre haverá conversas que não são fáceis de ter. Meu conselho é: antes de entrar na conversa, pense no que quer dizer. Depois que a conversa terminar, reflita sobre ela. Assim, na próxima vez que surgir uma situação semelhante, você estará mais preparado."

Esse conselho parece simples, mas quantos treinadores, depois de um conflito com um pai ou uma mãe, realmente fizeram uma análise daquela conversa? A maioria ou fica remoendo em silêncio, ou desabafa com outros treinadores — poucos encaram aquilo como uma oportunidade de aprendizado.

Relações não se constroem de um dia para o outro

Atualmente, Murning treina uma equipe de base Sub-10. Ele compartilhou um detalhe:

"Depois que os jogadores chegam e fazem o check-in, há cerca de 10 minutos antes de irem para o campo. Nesses 10 minutos, eu não falo de futebol. Pergunto como foi o dia na escola, o que estão aprendendo, se praticam algum outro esporte. Algumas crianças logo se abrem, outras precisam que você construa essa relação de forma contínua e gentil."

"No início da minha carreira de treinador, cometi um erro — na primeira vez que treinei um grupo novo de jogadores, algumas crianças não respondiam muito, e eu comecei a pensar 'será que ele não gosta de mim?'. Mas, na verdade, relações precisam de tempo. Reconhecer que isso é um processo já é, por si só, um passo muito importante."

Ele também mencionou um ponto que acredito tocar na dor de muitos treinadores:

"Os jogadores não vão te ouvir automaticamente só porque você entende muito de futebol. Primeiro, eles precisam saber que você se importa com eles como pessoas. Só depois é que vão estar dispostos a ouvir o que você tem a dizer sobre técnica e tática."

Isso não é nenhuma descoberta nova. Mas na próxima vez que for ao treino, preste atenção: você dedicou 2 minutos antes do início para perguntar a alguma criança como foi aquela prova de matemática que ela mencionou na semana passada? O poder dessas pequenas atitudes é maior do que você imagina. Os pais percebem, e as crianças também — porque você lembrou de um pequeno detalhe sobre elas, e não apenas da posição que ocupam em campo.

A habilidade mais valiosa durante o treino: a capacidade de improvisação

Quando perguntaram a Murning "qual é a habilidade mais subestimada de um treinador?", a resposta dele foi:

"A capacidade de reagir em tempo real ao que está acontecendo na sua frente."

"Quando observo diferentes treinadores conduzindo treinos, percebo que a maioria tem planos de treino bem feitos — porque hoje em dia há uma enorme quantidade de informação disponível online. Mas a verdadeira diferença de capacidade aparece durante o treino. E se o plano não corresponde à realidade? E se a reação dos jogadores é diferente do que você esperava? E se aparecem menos jogadores do que o previsto?"

Isso é provavelmente algo que todo treinador enfrenta toda semana. Você preparou um treino para 14 jogadores e apareceram 10. Planejou um 5v5, mas veio um jogador a mais e ficou ímpar. O tempo mudou de repente, o campo foi trocado.

O conselho de Murning é bem prático:

"Não prepare um plano separado para cada situação — ninguém tem tempo para isso. Mas, ao planejar, pense conscientemente: e se vierem 12? E se vierem só 10? Não precisa escrever, basta passar mentalmente por essas possibilidades."

"Outra forma de ajuste muito simples: mudar o tamanho do campo, mudar as regras, mudar o número de jogadores. Se vieram menos, diminua o campo. Se vieram mais, adicione um jogador coringa por fora. Esses ajustes podem ser feitos enquanto os jogadores estão jogando, sem precisar parar tudo e reposicionar os cones."

Ele também foi honesto ao dizer:

"Quando comecei como treinador, minha confiança vinha do plano de treino — eu o tratava como um cobertor de segurança. Quanto mais detalhado o plano, mais seguro eu me sentia. Mas depois percebi que a verdadeira capacidade de um treinador não está em quão bem o plano é escrito, mas no que você é capaz de fazer quando o plano e a realidade não coincidem."

Reflexão não exige muito tempo, mas exige intenção

Murning tem um ótimo hábito: no caminho de volta para casa de carro, ele grava um áudio no celular com suas reflexões sobre o treino do dia.

"Antes, eu ficava pensando no treino durante todo o caminho de volta, e só ao chegar em casa é que sentava para escrever a reflexão. Mas, na verdade, o tempo no carro é o melhor momento para refletir — gravar um áudio enquanto dirige mata dois coelhos com uma cajadada só."

Quando reflete, ele foca em três dimensões:

  1. O exercício em si — Como foi o desenho deste exercício? O tamanho do campo era adequado? As regras precisam de ajustes? O que mudar na próxima vez que usá-lo?

  2. Os jogadores — Como foi a reação deles hoje? Quem estava especialmente envolvido? Quem participou pouco? Qual foi o motivo?

  3. O próprio comportamento — Hoje eu fiquei recuado observando e deixei os jogadores jogarem sozinhos, ou entrei no meio do campo para intervir? Que impacto o meu comportamento teve sobre os jogadores?

"Não tente refletir sobre tudo — você pode ficar a noite inteira refletindo e nem tudo será útil. Se não sabe por onde começar, lance a si mesmo um desafio: depois de cada treino, encontre uma coisa que quer manter na próxima vez, ou uma coisa que quer mudar. Só uma."

Se a criança sai sorrindo e quer voltar na semana que vem — você venceu

Ao longo da entrevista, Murning voltou repetidamente a um ponto: ser treinador é difícil, e é preciso reconhecer essa dificuldade.

"A temporada é longa, e quando o tempo está ruim, fica ainda mais difícil. Se você ainda tem um trabalho em tempo integral e uma família, equilibrar tudo isso realmente não é fácil."

"Meu conselho é: reserve intencionalmente um tempo para não pensar em futebol. De forma consciente, inclua na sua semana atividades que você goste e que não tenham nada a ver com treinar."

"O papel de treinador às vezes pode ser solitário. Você vai ter momentos de dúvida, momentos de síndrome do impostor. Quando comecei a trabalhar numa academia profissional de base, tive aqueles momentos de 'será que estou realmente pronto para isso?'"

"Meu conselho para os treinadores é: quando tiver essas preocupações, fale com alguém. Conversar com pessoas de fora do futebol pode te dar uma nova perspectiva. Conversar com colegas da área vai te mostrar que todo mundo tem os mesmos sentimentos."

Por fim, ele disse algo que acho perfeito para encerrar este artigo:

"Não importa em que nível você treine — se os seus jogadores tiveram uma boa experiência, saíram sorrindo e querem voltar na semana seguinte — na minha opinião, isso é uma vitória."

Vitória não é só ganhar o jogo. Sucesso não é só ter um plano de treino perfeito. A criança sai sorrindo e quer voltar na semana que vem.

Esse é o verdadeiro propósito do nosso trabalho como treinadores.


Este artigo foi elaborado com base na entrevista do podcast Coach Cast da FA. Conor Murning é desenvolvedor de aprendizagem para treinadores da FA e já atuou nas categorias de base do Chelsea e do Fulham.